STJ: Lei Maria da Penha vale para mulheres trans; ativista comenta decisão
Por unanimidade, os ministros foram favoráveis a um recurso apresentado em favor de uma mulher transgênero que alega ter sido agredida pelo pai.
Os desembargadores da 10ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) haviam entendido que a lei Maria da Penha somente poderia ser aplicada em casos de violência doméstica ou familiar contra pessoas do sexo feminino – levando-se em conta exclusivamente o aspecto biológico.
A decisão seguiu a jurisprudência que já entendia essa proteção desde 2015
Presidenta nacional do PDT Diversidade, a advogada Amanda Anderson comemorou a decisão em conversa com o Brasil Independente, nesta quarta-feira (06).
Leia abaixo a breve conversa entre o BRI e a ativista, que é transexual e se colocou à disposição do seu partido como pré-candidata ao governo do estado do Paraná.
BRI: Qual a importância dessa decisão no país que mais mata transexuais no mundo?
Amanda Anderson: Um avanço civilizatório no combate a crimes conta a população trans no Brasil. Agora precisamos ficar atentas aos índices de crimes para verificar a redução nos casos de transfeminicídio e se haverá aplicação efetiva dessa demanda, mas não podemos deixar de crer que tudo que possa nos proteger, seja em relações interpessoais, familiares ou conjugais, é um avanço para o reconhecimento da cidadania de nossa população.
BRI: Acredita que isso pode ajudar a reduzir a violência contra as populações trans no Brasil?
A.A.: Ajudará a coibir porque a violência sempre será continua, mesmo que velada, mas a ação, com esse precedente de agravante, certamente será vista com outro olhar.
Julgamento
O Ministério Público Federal defendeu que a mulher transexual tem direito a medidas protetivas com base na lei Maria da Penha, independentemente de ter sido submetida a cirurgia de transgenitalização.
No caso concreto, a mulher alega que sofreu agressões que deixaram marcas visíveis, constatadas por autoridade policial. Segundo ela, seu pai chegou em casa alterado e, quando tentou sair da residência, ela foi imobilizada e jogada na parede e empurrada. Ela ainda foi ameaçada com um pedaço de madeira e conseguiu fugir.
O relator do caso, ministro Rogerio Schietti, afirmou que a decisão da Justiça em 1º e 2º Instâncias levou em consideração apenas a situação biológica, e não a identidade de gênero.
O ministro argumentou, ainda, que a discussão toda está rodeada de “uma certa transfobia” e disse que a própria população e algumas instituições reproduzem uma cultura “patriarcal” e “misógina”.
Os ministros Antonio Saldanha, Olindo Menezes, Laurita Vaz e Sebastião Reis acompanharam o relator e também votaram a favor do recurso e pela imposição de medidas protetivas requeridas pela vítima.
(Com informações da CNN Brasil)
Foto: Reprodução
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